Biotecnologia Alimentar – a alimentação do futuro?

 Em Artigos Técnicos & Comerciais, Política Agrícola

A biotecnologia é um campo multidisciplinar que usa sistemas biológicos ou organismos vivos para desenvolver produtos capazes de melhorar as nossas vidas e a saúde de nosso planeta.

Prevê-se que no ano de 2050 existirão no planeta cerca de 9,6 bilhões de habitantes – 2 bilhões a mais de bocas para alimentar do que hoje. A área cultivável, porém, será a mesma. Como equilibrar esta equação? A resposta é uma só: produzir mais e melhor com ajuda da tecnologia.  A capacidade do planeta produzir alimentos suficientes para esta duplicação está em dúvida, face às mudanças climáticas, escassez de água, sustentabilidade dos sistemas de produção atuais e disponibilidade de terra agrícola, entre outros. É preciso aperfeiçoar os processos de produção alimentar, desenvolvendo produtos mais resistentes a pragas e mudanças climáticas, e melhorando as suas qualidades nutricionais para assegurar a saúde da população.

A Biotecnologia é a tecnologia baseada na biologia, mais precisamente é qualquer aplicação tecnológica que utilize organismos vivos ou parte deles para fabricar ou modificar produtos ou processos que ajudem a melhorar a nossa vida e a saúde do nosso planeta. É fundamental na produção de vários alimentos do dia a dia, nomeadamente na produção de pães, queijos, iogurtes e bolos, por exemplo, são sintetizadas industrialmente com ajuda de bactérias, leveduras, fungos, algas ou até alguns tipos de vírus. Esse exército microscópico ajuda a fabricar alimentos mais saudáveis, seguros e acessíveis economicamente, por meio de processos industriais controláveis e de alta escalabilidade.

A origem desta tecnologia está provavelmente ligada à agricultura; com efeito, o cultivo de plantas pode ser visto como a primeira manifestação da biotecnologia. Há milhares de anos que a humanidade usa a biotecnologia na agricultura e na produção de alimentos e medicamentos.  Mas a evolução da biotecnologia trouxe outras aplicações, além da produção em si. “Os microrganismos hoje ajudam a fabricar substâncias para realçar sabor, agregar textura, cor e consistência, e até elevar a quantidade de vitaminas em alimentos”, diz Airton Vialta, pesquisador-doutor em microbiologia e conselheiro do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).

A Biotecnologia surge como a (melhor) solução possível para evitar uma crise alimentar mundial no futuro.

Embora os avanços da biotecnologia sejam pouco conhecidos e estimados, esta surge como uma proposta robusta na agenda de investigação agrícola, abrindo uma nova era à engenharia genética, onde é possível editar, corrigir e alterar o genoma de qualquer célula de modo fácil, rápido e não dispendioso e, simultaneamente, de modo preciso.

Basicamente, tudo é possível, mesmo fora dos limites da reprodução das espécies.

As implicações de tudo isto, pelas possibilidades de desenhar completamente novos organismos vivos, conduzem à necessidade de revisão ética destas questões e maior investigação, pela comunidade científica. No limite, podem ser desenhados super homens/super mulheres ou super organismos. Em função da procura, indivíduos podem ser “editados” pela altura, cor dos olhos, tonicidade muscular, tom de pele, tipo de cabelo, resistência a doenças e outras características. Até agora, esta tecnologia repartia-se em diferentes patentes, complementares, com direitos legais relativos a dois grupos (Broad Institute e Dupont-Pioneer). Mas, a partir de outubro, os referidos grupos, onde somente o segundo trabalhava a vertente agrícola, assinaram um acordo de mútuo acesso às patentes e de acesso gratuito dessas patentes a centros de investigação científica-académica do mundo e a centros sem fins lucrativos. Em consequência, o acesso a todo o conjunto de patentes, incluindo a possibilidade de licenciamento não exclusivo para uso comercial na agricultura, é possível.

O impacto da biotecnologia no consumo de alimentos

E não faltam exemplos no mercado. Nos Estados Unidos, a soja Vistive Gold representa um dos primeiros produtos biotecnológicos que permite ao agricultor levar benefícios nutricionais aos consumidores, ao mesmo tempo em que cultiva um tipo de soja de alto rendimento. O óleo resultante, Vistive® Gold, é ideal para frituras saudáveis: tem 85% menos gordura saturada do que o óleo de palma, 70% menos do que a gordura vegetal e 60% menos do que o óleo de soja convencional. Agora, que tal um molho de salada feito com óleo de soja, mas que ofereça os benefícios do Ômega 3? Ou seja, um molho que faça bem ao coração sem possuir sabor de peixe, característico dos alimentos fonte de ácido graxos essenciais. Isso já é possível com a soja Ômega 3 com Ácido Estearidônico (SDA), também obtido por meio da biotecnologia.

1. Leite produzido sem vacas

Muitas pessoas acreditam que, no futuro, não mais dependeremos dos animais para produzir os nossos alimentos, pois seremos capazes – nós mesmos – de produzir as vitaminas e proteínas que necessitamos. A indústria da agricultura celular é, certamente, uma das maiores manifestações da economia pós-animal. Este recente campo utiliza a biotecnologia para produzir proteínas e biomoléculas tipicamente derivadas de animais. A técnica permite preparar alimentos e bebidas de forma local e sustentável, diminuindo o uso de terra, reduzindo o consumo de energia e aliviando o impacto ambiental da pecuária. A Perfect Day é, talvez, um dos grandes nomes da agricultura celular. A empresa produz leite sem precisar de uma única vaca. O produto contém as mesmas proteínas que o leite produzido pela vaca, não tem lactose nem colesterol, e, ainda por cima, tem uma vida de prateleira de seis meses. Em vez de ordenhar vacas, a empresa desenvolveu um processo que usa leveduras e técnicas de fermentação para criar as mesmas proteínas lácteas que os bovinos produzem. As proteínas fabricadas pela empresa servem inclusive para outros produtos lácteos, como queijos, iogurtes, achocolatados e sorvetes.

2. Carne produzida sem gado

Você comeria carne cultivada em laboratório? Embora a maioria das pessoas permaneça resistente à ideia, tudo indica que consumir carne produzida em laboratórios será bastante comum nos próximos anos, especialmente se dependermos da Memphis Meats. A empresa arrecadou recentemente US$ 17 milhões de investidores, incluindo nomes como Bill Gates (Microsoft) e Richard Branson (Virgin Group), para transformar a maneira como consumimos carne. As próximas metas incluem desenvolver um produto viável para consumo até 2022. Hoje, os cientistas conseguem extrair células de animais a partir de pequenas biópsias, para, em seguida, cultivá-las em laboratório. Este sistema como um todo tem imenso potencial para produzir carne local, barata e escalável, o que seria bastante conveniente para os consumidores.

3. Clara de ovo produzida sem galinhas

Clara Foods acredita que os modelos atuais de produção de ovos serão insuficientes para sustentar as necessidades alimentares mundiais nos próximos anos. Por isso, a empresa reuniu uma nova geração de empresários e cientistas para oferecer uma solução viável: criar a primeira clara de ovo livre de animais. Hoje, a Clara Foods está desenvolvendo uma nova linha de ingredientes para substituir as claras em diversas aplicações, como bolos, merengues e macarrões. A equipe da empresa consegue criar claras com propriedades específicas (volume, espuma e textura) para as necessidades de cada cliente.

A Biotecnologia em Portugal

As áreas da Biotecnologia com maior impacto em Portugal são as da Biotecnologia Farmacêutica e Industrial. A Biotecnologia Farmacêutica está ligada principalmente ao desenvolvimento e comercialização de biofármacos, vacinas recombinantes e métodos de diagnóstico, que movimentam mais de 10 biliões de Euros na UE, representando 0.25% do valor acrescentado bruto, permitindo oferecer tratamento para um alargado leque de doenças incluindo certos tipos de cancro, ou vacinas inovadoras, bem como permite a deteção rápida de agentes patógenos. A Biotecnologia Industrial engloba as aplicações da Biotecnologia em diferentes indústrias como a têxtil, da pasta e papel, alimentar (processamento de lacticínios, açúcar e produção de ingredientes), de plásticos, químicos e biocombustíveis (essencialmente bio-etanol). Uma parte importante deste setor é a produção de enzimas (usadas, por exemplo, nos detergentes) que só a nível Europeu movimenta perto de 2 biliões de Euros, representando 0.05% do valor acrescentado bruto da UE.

No entanto, as empresas nacionais com maior maturidade têm tido dificuldades em prosseguir um crescimento sustentado, quer por dificuldades em acesso a financiamento, quer por falta de massa crítica em Biotecnologia empresarial no país. Essas dificuldades foram, nos últimos tempos, agravadas pela atual crise, que tem afetado significativamente todos os setores económicos que fazem uso da biotecnologia. As empresas de biotecnologia empregam diretamente na Europa 96500 pessoas. Em Portugal o setor emprega diretamente perto de 700 pessoas. Em ambos os casos, porém, existe um número muito superior de empregos em Biotecnologia em empresas de outros setores.

Deste ponto de vista Portugal coloca-se hoje perante um dilema. Não restam dúvidas que foi feito um esforço importante, nos últimos vinte anos, a nível do investimento público em I&D, resultando num notável aumento no número de doutorados e de publicações científicas com origem em Portugal, e numa clara melhoria das infraestruturas. Este progresso foi particularmente sensível nas áreas que estão na base da biotecnologia e das Lifescience. No entanto, apesar da biotecnologia representar atualmente quase 10% das patentes submetidas por inventores Portugueses, o valor económico do setor só se registará ao final de um tempo alargado e não num intervalo de curto prazo.

O futuro da biotecnologia

Aquilo que era ficção científica tempos atrás é a realidade que vivemos hoje.

A biotecnologia é um dos setores profissionais com uma maior previsão de crescimento. É considerada a ciência chave do século XXI e promete progressos revolucionários e novas terapias. A biotecnologia aplicada à medicina é uma das áreas de maior crescimento do conhecimento humano e está relacionada com o desenvolvimento de sistemas terapêuticos emergentes como a terapia genética, a terapia celular ou a medicina regenerativa. É um dos setores profissionais com maior previsão de expansão a médio prazo.

No estudo do futurismo temos que nos habituar com o desconhecido, com o inexplorável, com o improvável.  Talvez pouco em breve seremos super-humanos, com saúde e genéticas impecáveis, ou talvez não. Mas não podemos negar que esses avanços são cada vez mais rápidos e pode ser que mudem as nossas vidas de uma hora para outra. Portanto, não devemos deixar estes assuntos limitados somente à ciência e à tecnologia. Todos estamos envolvidos quando se trata do futuro da nossa espécie.

Devemos pensar no futuro que estamos a construir para a humanidade!

Fonte: http://p-bio.org/pt/panorama-nacional/ | http://noticias.universia.pt/educacao/noticia/2018/04/03/1158270/biotecnologia-medicina-futuro.html | http://futuroexponencial.com/biotecnologia-alimentamos-futuro/futuroexponencial.com/biotecnologia-alimentamos-futuro/

 

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