Pelo segundo ano consecutivo, a agricultura está no Nobel da Paz

 In Opinião

Opinião de Eduardo Oliveira e Sousa,  Presidente da CAP

Em 2020, o mais prestigiado prémio do mundo, o Nobel da Paz, foi atribuído ao Programa Alimentar da ONU. Na sua base está a produção agrícola de alimentos e o enorme esforço da FAO em fazer chegar às populações mais carenciadas do planeta bens alimentares que permitam combater a fome e a pobreza extrema.

O problema da alimentação de uma população crescente tenderá a agravar-se se o mundo não encontrar formas de aumentar a produção agrícola. O enorme desafio é a busca de soluções que permitam alcançar esse objectivo, promovendo, em simultâneo, os três pilares da Sustentabilidade: ambiental, económica e social.

Foi com este triângulo na mente que o Ministro da Agricultura do Brasil, Alysson Paolinelli, um jovem engenheiro agrónomo, na década de 70 do século passado, reconhecendo e confiante no valor do conhecimento, na eficácia da técnica e no poder da vontade dos homens, se lançou na aventura de transformar um país do tamanho de um continente, importador de alimentos e com uma população maioritariamente pobre e dependente, na quarta maior potência mundial de produção agrícola e o primeiro exportador do mundo de alimentos básicos que é hoje.

Segundo a ONU, se Alysson Paolinelli não tivesse desencadeado o processo de transformação da agricultura tropical e se o Brasil não tivesse percorrido com sucesso esse caminho, o preço da alimentação a nível mundial, seria hoje 66% mais caro do que em 1971. Foi um passo gigantesco e a prova que, com recurso à tecnologia, à inovação e à contínua investigação e desenvolvimento, o progresso é possível.

Pelo seu contributo para o desenvolvimento da agricultura tropical em toda a América Latina, pela revolução agrícola que desencadeou na região dos trópicos, pela estabilidade alimentar que promoveu no seu país e no mundo, por toda uma vida dedicada à agricultura, ao recuo do peso da alimentação nos gastos em consumo das famílias, à criação e manutenção de milhões de empregos em ambiente rural, Alysson Paolinelli, aos 84 anos de idade e após ter recebido, em 2006, o World Food Prize, é, em 2021, nomeado para o Prémio Nobel da Paz.

Numa altura em que na Europa se questionam as vantagens da intensificação da produção agrícola, quando ela própria conseguiu sair do espectro da fome após a Segunda Grande Guerra, fruto dessa mesma capacidade de resposta, quando se põem em causa os avanços tecnológicos que nos permitirão assegurar a estabilidade alimentar, em sintonia com os valores ambientais que imperativamente deveremos manter, o mundo prepara-se para premiar e reconhecer que são esses os valores que nos permitirão assegurar a alimentação no futuro.

Em termos históricos, é sobejamente conhecido o potencial surgimento de conflitos sociais motivados pela falta de alimentos. É a fome que motiva as grandes migrações e, com elas, grandes conflitos sociais e perturbações económicas.

Mais difícil ainda, é entender quem defenda ou pretenda condicionar a produção agrícola, impondo modelos de produção ilusórios e limitações ao recurso à evolução tecnológica, imbuídos de conceitos conservacionistas não assentes na Ciência, mas sim na ideologia.

Urge mudar de paradigma. Urge uma abertura de espírito. Urge uma introspecção despida de preconceitos. O mundo precisa de mais alimentos. São a base da Paz.

É justa a nomeação ao Prémio Nobel da Paz de quem, pela sua Visão, pelo seu trabalho, pelo seu empenho, seguro da sua Missão e do bem comum que promoveu, tanto contribuiu para diminuir a fome à escala global. Seja ou não o laureado, o mundo está já reconhecido e grato a Alysson Paolinelli.

Artigo publicado no Observador.

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