O cultivo do limão

 Em Artigos Técnicos & Comerciais, Fruticultura

O cultivo do limão para utilização doméstica em Portugal encontra-se dispersa um pouco por todo o país, surgindo muitas vezes nas hortas ou em combinação com outras fruteiras.

A produção organizada, em maior dimensão, concentra-se sobretudo no Algarve, ocorrendo também na zona do Ribatejo e Oeste perto de Lisboa, na península de Setúbal e, em menor escala, no Entre-Douro e Minho.

Os cítricos tiveram a sua origem há cerca de 20 milhões de anos, no sudeste da Ásia. Desde então até agora, sofreram inúmeras modificações devido à seleção natural e aos híbridos naturais e artificiais desenvolvidos pelo Homem.

A dispersão de frutas cítricas dos seus lugares de origem deveu-se principalmente aos grandes movimentos migratórios: conquistas de “Alexandre, o Grande”, expansão do Islã, cruzadas, descoberta da América, etc.

O cultivo do limão foi introduzido pelos árabes na região do Mediterrâneo entre os anos 1.000 e 1.200, sendo descrito na literatura árabe no final do século XII.

Taxonomia e Morfologia

-Família: Rutaceae.
-Gênero: Citrus.
-Espécie: Citrus limon.
-Porte: Hábito mais aberto (menos arredondado). O final dos ramos é arroxeado. Tem espinhos muito curtos e fortes.
-Folhas: sem asas. Emitem um cheiro a limão.
-Flores: Solitárias ou em pequenos cachos. Floração mais ou menos contínua, uma vez que é o cítrico mais tropical jutamente com a toranja, é possível gerir o risco de manter a fruta na árvore até o verão, já que é a época de maior rentabilidade.
-Fruto: Hesperidio.

Importância económica e distribuição geográfica

Em termos de custos de produção no cultivo do limão, nem a poda nem a colheita são muito representativos, mas sim os custos associados à fertirrigação (tem inúmeras deficiências em macro e micronutrientes) e a tratamentos fitossanitários.
Os preços das frutas cítricas obtidas são semelhantes entre as espécies, bem como os rendimentos, embora sejam um pouco mais elevados em tangerina e limão, mas as características de comercialização e consumo do limão divergem do resto dos citrinos, pois este é um condimento e não uma sobremesa.
O principal uso é o consumo em fresco, tanto para sumos caseiros e refrigerantes ou tempero para muitos pratos. Nos últimos anos, o uso industrial aumentou para a produção de sumos e concentrados naturais, óleos essenciais, polpas, pectinas, flavonoides, rações, etc. e, ainda mais recentemente, para a produção de ácido cítrico natural para a preparação de conservas naturais.

A Espanha é o principal exportador de limões para os países da Europa, sendo os seus principais concorrentes os países da bacia do Mediterrâneo, América do Sul e África do Sul.
A produção e comercialização do hemisfério norte está localizada entre os meses de outubro e abril; e no hemisfério sul de maio a setembro, complementando-se desta forma, exceto na variedade Verna na Espanha, que se sobrepõe aos do hemisfério sul.

PaísesProduçãod e limões e limas
Ano 2002 (toneladas)
México1.720.020
India1.400.000
Argentina1.180.000
Irão1.038.832
Espanha902.000
Estados Unidos751.150
Brasil580.000
Itália530.000
Turquia400.000

Fonte: FAO.

Requisitos Edafoclimáticos

É a espécie cítrica mais sensível ao frio, por ser a mais tropical e apresentar floração quase contínua. Desta forma, é necessário, para a vegetação, climas semitropicais. Em climas tropicais, o limoeiro cresce e frutifica normalmente, porém, os frutos que produz não têm boa qualidade comercial, tendo uma casca muito grossa e o fruto com pouca acidez, sendo que, nessas áreas, é preferida a cultura da lima ácida (C latifolia). O clima mais adequado para o cultivo de limão é o tipo mediterrâneo livre de geadas. Os períodos de seca, seguidos das chuvas, exercem um papel importante na floração.

Para a produção de limão é necessário solos permeáveis ​​e pouco calcários. Recomenda-se que o solo seja profundo, para garantir a ancoragem da árvore, uma exploração extensiva para garantir uma boa nutrição e um crescimento adequado.

Os solos devem ter uma proporção equilibrada de elementos grossos e finos (textura), para garantir uma boa aeração e facilitar a passagem da água, além de fornecer uma estrutura que mantenha um bom estado de humidade e uma boa capacidade de troca de catiónica.

Os limões não toleram a salinidade e são sensíveis à asfixia radicular. Em geral, a salinidade afeta o crescimento das plantas através de três mecanismos relacionados, mas diferentes:

– Alterações hídricas produzidas pelos seus efeitos osmóticos na disponibilidade de água.
– Acumulação de íons tóxicos.
– Interferências com a absorção de nutrientes essenciais, que causam desequilíbrios no equilíbrio de elementos minerais.

Em frutas cítricas, os efeitos nocivos dos sais são combatidos com:

– Estratégias de irrigação.
– Uso de material vegetal tolerante.
– Uso de sais de cálcio.

Interpretação de análises de solo
Determinações analíticasNíveis
Muito baixoBaixoNormalAltoMuito alto
Reação pH<5.55.5-6.56.6-7.57-6-8.5>8.5
CO3Ca total (%)<22-1011-2021-40>40
CO3Ca ativo (%)<11-45-910-15>15
CE (dS(/m)<0.200.20-0.400.41-0.700.71-1.20>1.20
N total<0.070.07-0.120.13-0.180.19-0.24>0.24
Relación C/N<66-88.1-1010.1-12>12
C.M.C. (meq/100 g)<55-1011-2021-30>30
Ca (%)<2525-4546-7576-90>90
Mg (%)<55-1011-2021-25>25
K (%)<22-45-89-12>12
Na (%)<11-23-910-15>15
Relação Ca/Mg (meq/100 g)<11-34-67-10>10
Relação K/Mg (meq/100 g)<0.100.10-0.150.16-0.350.36-0.60>0.60

*C.M.C.: capacidade de mudança catónica.

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Propagação

Teoricamente, nas frutas cítricas em geral, e consequentemente no cultivo do limão, a propagação sexual é possível através de sementes apomíticas (poliembrionárias) e saudáveis. No entanto, a reprodução através das sementes tem uma série de desvantagens: elas fornecem plantas que têm que passar por um período juvenil, que para além disso são mais vigorosas e com maior heterogeneidade. Portanto, a propagação assexuada é preferível, especificamente pelo enxerto reforço à gema durante o mês de março, dando resultados muito bons. Se for necessário enxertar novamente para alterar a variedade, é possível fazer o enxerto de retalho, que também dá resultados muito bons. A criação é possível em algumas variedades de algumas espécies, enquanto todas as espécies podem ser micropropagadas mas, em ambos os casos, elas serão usadas apenas como plantas-mãe para enxertos subsequentes.

Variedades

Os critérios de seleção da variedade são baseados no teor de sumo, sua qualidade, exposição solar e presença de sementes. Entre as variedades mais comuns existem: Verno (70% da produção espanhola, coleção em fevereiro-julho), Fino, Eureka e Lisboa.

Verno

Árvore: vigorosa com poucos e pequenos espinhos.
O peso do fruto é de cerca de 130 gramas. Tem uma forma oval. A Cor exterior é amarela intensa. Tem poucas sementes Casca grossa, que favorece o transporte e o manuseamento. A pele do limão maduro é amarelo pálido, menos intensa do que na variedade Fino, chegando à coloração um a dois meses depois desta variedade, tendo os frutos no interior da árvore uma cor branca amarelada. Quando as frutas maduras permanecem na árvore durante o verão, o ataque de Ceratitis capitata pode ser mais intenso. Se o verão estiver quente, a fruta tende a ficar verde novamente.
A colheita efetua-se de fevereiro a junho. Uma das suas principais vantagens é que cresce no verão, quando os limões são escassos nos mercados europeus. Embora remontante, a segunda colheita é de menor qualidade e escasso uso comercial. Tem uma tendência natural para a reflorescência, especialmente se os desequilíbrios de rega ocorrerem durante o cultivo ou a árvore tiver poucos frutos da colheita principal.

Fino

Árvore: muito vigorosa e grande. Tem tendência à emissão de botões com espinhos.
Frutas: tamanho médio de cerca de 110 gramas. Apresenta uma forma variável, podendo ser esféricos ou ovais. Tem mais sementes, pele mais fina e maior teor de sumo que a variedade Verna.
Colheita na primavera e na segunda temporada (outubro-fevereiro). Muito cultivada na Espanha, Itália, Argentina e Uruguai. É uma variedade mais precoce do que a anterior, por isso deve ser cultivada em áreas quentes, sem o risco de geada.
Grande qualidade para consumo fresco e para a indústria. A sua característica mais importante é a precocidade desde a sua permanência na árvore, embora a sua resistência à manipulação seja menor do que na variedade Verna.

Eureka

Árvore: tamanho médio e vigor. Poucos e pequenos espinhos.
Frutas: tamanho médio a grande, com cerca de 120 gramas. Forma elíptica ou oblonga. Poucas ou nenhumas sementes. Casca de espessura média e com tendência a mostrar estrias. Tem um sumo muito ácido, com polpa amarelo-esverdeada.
Entrada rápida em produção. Muito cultivada na Califórnia, Austrália, África do Sul, Argentina e Israel. Pode produzir duas colheitas, a primeira e mais importante, é colhida no mesmo período que a variedade Fino ou um pouco antes. Variedade muito produtiva, com tendência a frutificar nas extremidades dos ramos. É sensível ao frio e ao ácaro das maravilhas.

Lisboa

Árvore: muito vigorosa e rústica. Muitos espinhos, que causam danos às frutas e folhas.
Frutos: alto número de sementes.
A folhagem densa permite que a fruta não fique tão exposta. Quando a árvore é adulta, o avanço no tamanho da fruta é menor do que na variedade Fino.

Plantação

Os objetivos do planeamento da plantação são fundamentalmente dois: capturar a maior quantidade de luz por parte das árvores e facilitar a gestão da maquinaria no interior da exploração. Os marcos de plantação no limoeiro são mais largos (6,5 x 5, 6,5 x 6, 7 x 5) do que em tangerinas e laranjas, embora sejam variáveis dependendo da variedade, plantio e condições de crescimento.

Fertilização

O cultivo de limão é muito exigente em termos de fertilizante (macro e micronutrientes), o que representa uma grande parte dos custos da cultura. O limoeiro frequentemente sofre de carências, destacando-se a falta de magnésio, que está intimamente relacionado com o excesso de potássio e cálcio, e que é solucionado com aplicações foliares. Outra carência frequente é o zinco, que é resolvido pela aplicação de sulfato de zinco. No limoeiro, recomenda-se definir 2-3 passagens com oxicloreto de cobre após a floração.

O défice de ferro está ligado aos solos de calcário, dando origem à clorose férrica, muito característica nas plantações de limão. Neste tipo de cultivo, o seu ciclo de vida é encurtado, de modo a que a fase produtiva é menor que o normal, tanto no número de frutos como na qualidade dos mesmos. Assim, é muito importante controlar e corrigir a clorose férrica na cultura do limoeiro. A correção da clorose férrica pode ser realizada com melhoramento genético e pela adição de fertilizantes. Entre os diferentes fertilizantes que podem ser aplicados, os quelatos sintéticos de ferro oferecem os melhores resultados, embora apresentem um preço alto. Para reduzir o seu custo, é possível reduzir a dose de quelatos aplicada e aumentar a dose de ácidos húmicos e aminoácidos.

Plano de fertilização indicativo nos primeiros quatro anos

(Quantidades de fertilizante expresso em gramas por árvore por ano)
Tipos de Fertilizante1º ano2º ano3º ano4º ano
SOLIDOSNitrato de amónio150190270360
Nitrato potássico70120150
Fosfato monoamónico4075100
Nitrato de magnésio3060115
LIQUIDOSN-202501006050
12 –4-65008501150
Nitrato de magnésio3060115
Quelatos de ferro 6%6101520

Outras considerações:
Se possível, fertilizar a cada irrigação. Tenha cuidado para não exceder 2 quilos de fertilizante por m3 de água de irrigação, para evitar excesso de salinidade.
O uso de inibidores de nitrificação pode ser útil para regular o fornecimento de nitrogénio e minimizar as perdas deste devido à lavagem do íon nitrato.
Os quelatos de ferro devem ser fornecidas em 2 ou 3 aplicações, especialmente durante o brotamento da primavera. É aconselhável fornecer-lhes ácidos húmicos e aminoácidos.
O fertilizante é indicado nos primeiros 4 anos, uma vez que, posteriormente, recomenda-se uma assessoria técnica especializada que tenha em conta vários fatores, como o tamanho, produção esperada, variedade, pé, etc.

Rega

O cultivo do limão exige grandes quantidades de água (9.000-12.000 m3 / ha). Em parcelas pequenas aplica-se por vezes a rega por inundação, embora a tendência atual é utilizar rega gota a gota e rega por aspersão.
A gestão da rega pode provocar florações nas datas apropriadas. O processo de indução e desenvolvimento das flores no limoeiro é controlado pela temperatura e pelo stresse hídrico. Aproveitando-o, realiza-se a seguinte prática: a irrigação é retirada durante 45 dias e depois regada em abundância: isso produz uma floração abundante, que traz boa colheita e potencialmente bons preços no ano seguinte.
Recomenda-se administrar regas diárias no verão e pelo menos duas ou três regas semanais no inverno. Também é necessário aplicar fertilizantes via rega em baixas concentrações, não aumentando assim a salinidade da água de irrigação.

Poda

A poda de árvores adultas é feita na primavera, após a colheita, desde que não haja perigo de baixas temperaturas. Os galhos mortos, fracos ou doentes devem ser eliminados e o restante da vegetação revigorado. As árvores que não são podadas florescem abundantemente, mas depois tornam-se ingovernáveis. A poda é manual, e deve ser realizada anualmente, é eliminando os ramos que se cruzam, interiores, e secos, deixando o centro aberto para facilitar a iluminação no interior da árvore.

Colheita

Deve ocorrer quando o teor mínimo de sumo por volume é de 28 a 30%, dependendo do grau de classificação. Limões colhidos no estádio verde escuro têm a vida pós-colheita mais longa, enquanto aqueles colhidos completamente amarelos devem ser comercializados mais rapidamente.

A colheita no cultivo do limão é manual e deve ser feita com um alicate. Deve ser feito na ausência de orvalho ou névoa. Os recipientes utilizados na colheita são cestos ou caixas plásticas com capacidade para 18-20 Kg, sendo desejáveis proteções de borracha. Uma vez nas caixas finais são transportados em camiões ventilados e movidos para o armazém.

Comercialização

Existe produção em Portugal suficiente para abastecer o mercado nacional, pelo que o aumento das plantações deverá ter como desfecho a exportação do limão.
Para a exportação é preciso que a produção esteja concentrada em organizações de produtores ou entrepostos com quantidades que se aproximem da economia de escala dessa atividade.

Fontes: Citrinos, GPP. | A cultura do limão, Espaço Visual | El cultivo de los limones, InfoAgro

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