Produção e Comercialização de Mirtilo

 Em Artigos Técnicos & Comerciais, Pequenos Frutos

Sendo uma planta de características particulares, para uma eficiente produção e comercialização de mirtilo é necessário ter em conta uma variedade de fatores.

O mirtilo (Vaccinium corymbosum) é um arbusto que pertence à família das Ericáceas.
Trata-se de uma cultura relativamente recente que encontra em Portugal condições edafo-climáticas propícias ao seu desenvolvimento.
O mirtilo é tipo de fruto denominado coloquialmente como pequeno fruto, cujo tamanho oscila entre os 7 e 12 milímetros de diâmetro.

As principais características distintivas deste fruto são a sua cor em tons de azul e a estrela de cinco pontas na parte superior do fruto.
Possui uma pele firme e a sua polpa é tradicionalmente suculenta e aromática, de sabor agridoce.

Produção

Clima

Os fatores climáticos têm diferentes níveis de influência, consoante a fase de desenvolvimento em que se encontra a planta. Durante a fase de repouso vegetativo, o frio é o fator mais importante. Na fase vegetativa são a temperatura, a precipitação e a radiação solar.
No repouso vegetativo, para a planta ter um período suficiente de dormência, tem que passar, no mínimo (dependendo também das variedades/cultivares), por 700 horas, a cerca de 7ºC.

Na fase vegetativa, as plantas são vulneráveis aos ventos frios tardios da primavera que possam ocorrer após a abertura das flores. Temperaturas acima dos 30ºC no verão podem levar à morte das folhas, principalmente em cultivares de rápido crescimento vegetativo, que estejam completamente expostas ao sol. A estas temperaturas as raízes não conseguem sugar água suficiente para compensar as perdas por transpiração levada a cabo pelas folhas.

Exposição Solar e Orientação

O mirtilo arbustivo, apesar de sofrer com temperaturas elevadas, é uma planta que tendencialmente procura de sol. As parcelas que se encontram expostas a Sul recebem mais incidência solar, pelo que os riscos de geada são menores. A orientação das linhas deve ser, sempre que possível, Norte-Sul.

Necessidade de Água

Desde a sua plantação e ao longo dos 4 a 5 primeiros anos de cultura, o mirtilo exige um fornecimento regular em água, para se desenvolver e frutificar normalmente. Na fase de formação do fruto, a necessidade de água é crítica e após a colheita, a deficiência em água pode comprometer a produção do ano seguinte. As raízes do mirtilo, como a maioria das plantas, não possuem pelos radiculares que lhes proporcionem uma maior área de absorção, pelo que este é um fator a ter em conta na programação da rega.

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Preparação do Terreno

O solo deve ser preparado antes de se efetuar a plantação, retirando todas as ervas daninhas existentes no terreno. De seguida, deve ser efetuada uma lavoura e posteriormente a correção orgânica. Para regularizar o terreno e torná-lo mais solto e necessário realizar a gradagem.
Se a área de plantação possuir uma boa drenagem, a plantação pode ser feita logo após o solo ser nivelado.
Por outro lado, se o solo não possui uma boa drenagem que remova o excesso de água após chuvadas fortes, devem-se criar camalhões, de forma a elevar a posição das plantas.
Caso o solo seja deficiente em matéria orgânica, poderá ser introduzida matéria (como por exemplo turfa ou agulhas de pinheiro) no solo a uma profundidade de 10 a 15 cm, ao longo das linhas de plantação.

Terrenos florestais benéficos

Mirtilos plantados em solos que tenham sido recentemente usados para floresta beneficiam dos resíduos das muitas gerações de folhas e outros detritos (matéria orgânica). Esta matéria orgânica, não só incrementa a acidez, como produz um ambiente adequado para os microrganismos do solo (principalmente bactérias) degradarem lentamente a matéria e libertarem gradualmente os minerais para as raízes da planta.

Ph do solo

As cultivares (variedades) de mirtilo do grupo “Norte” requerem um pH entre 4.0 e 5.2, sendo o ótimo entre pH 4.3 e 4.8. É dentro deste intervalo que é encontrado o equilíbrio de minerais que as plantas necessitam. Quando é necessário baixar o pH do solo rapidamente, pode recorrer-se ao enxofre elementar.
O enxofre deve ser incorporado no solo pelo menos seis semanas antes da plantação, com bastante precaução: em quantidades excessivas pode baixar o pH para níveis perigosos. Por exemplo, solos com pH igual ou inferior a 3.5 libertam minerais tóxicos e solos alcalinos com pH 7.0 ou superior, não contribuem para uma produção de mirtilos eficiente.

Arejamento do Solo

Um solo com uma larga percentagem de partículas de areia é bom, desde que a mistura proporcione uma base com bom arejamento e drenagem, garantindo que as raízes finas e fibrosas se possam espalhar. Será ainda melhor se existir 20 a 30% de partículas argilosas no solo, pois favorece retenção de água no Verão, bem como uma melhor fixação das raízes. O mirtilo tem preferência por solos arenosos, franco-arenosos ou medianamente argilosos, não muito profundos.

Fertilização de fundo

A fertilização de fundo deve ser planeada conforme os resultados da análise de solo realizada. Os adubos fosfatados e potássicos devem ser aplicados em toda a área, preferencialmente a lanço e incorporados a 20 cm de profundidade. A aplicação de azoto deve ser efetuada na altura da plantação e não na forma de nitrato (NO3), pois esta forma tem-se mostrado tóxica para o mirtilo: na forma de amónia (NH4), é mais solúvel e é mais rapidamente absorvido pelas plantas.

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Cultivares (Variedades)

A escolha das plantas deve ser feita consoante o tipo de solo e clima a que o produtor tem acesso.
Devem ser escolhidas para a plantação, naturalmente, plantas de alta qualidade, saudáveis, vigorosas, livres de vírus e com um sistema radicular já bem desenvolvido. Assim, tornam-se mais resistentes a situações de stress. Desta forma, devem-se procurar fornecedores que providenciem plantas com garantias de sanidade.
Dependendo da estratégia comercial a adotar, poderá ter maior ou menor peso as características organoléticas de cada variedade – sabor, textura e aspeto.

Plantação

A época do ano ótima para plantação depende das condições do local onde a parcela está localizada. Nas regiões de clima temperado, o começo do Inverno é o período ideal para a plantação: logo após a queda das folhas e enquanto as raízes ainda estão ativas. As chuvas invernais, que eventualmente poderão cair neste período, ajudarão a uma melhor adaptação do sistema radicular ao novo meio e estabelecimento das plantas.
Nas regiões onde os invernos são severos, com temperaturas esperadas abaixo dos – 8ºC, e com probabilidades de congelamento do solo, deve esperar-se pela primavera para efetuar a plantação. Nessa altura, deve regar-se bem o solo e retirar as ervas daninhas que vão competir com as plantas de mirtilo. Antes de se colocar as plantas no solo deve-se verificar se as suas raízes estão húmidas e saudáveis e embebê-las em água se necessário.

Tempo de vida da planta de mirtilo

A plantação realiza-se para um longo período (25 a 30 anos), pelo que é importante uma boa instalação da planta.

Primeiro ano de plantação

É aconselhada a remoção dos botões florais para que a planta dispense toda a sua energia no crescimento das raízes. As plantas podem necessitar de uma poda mais intensa para dar balanço na proporção entre o sistema radicular e a parte aérea.

Distância entre plantas

As distâncias entre linhas devem variar entre 2 a 2,5 m e 1,5m a 1,75m entre plantas, pois as suas raízes desenvolvem-se num diâmetro de 1,5 metros. Estas medidas podem variar consoante o tipo de topografia, o tipo de terreno, a pluviosidade e o tipo de maquinaria que se utiliza na manutenção da cultura.

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Fertilização

Os macronutrientes principais, Azoto (N), Fósforo (P) e Potássio (K) são necessários regularmente na fertilização do mirtilo, normalmente uma ou duas vezes por ano.
O Azoto é o nutriente mais importante e, em solos orgânicos onde exista boa reserva dos restantes nutrientes, pode ser a única fertilização necessária. Durante a fase de crescimento das plantas, recomenda-se a aplicação somente de azoto, uma vez que o fósforo e potássio aplicados na adubação de fundo ainda devem estar disponíveis para absorção.
A aplicação de azoto deve ser dividida, pois o mirtilo apresenta suscetibilidade a toxicidade. A primeira aplicação de azoto deve coincidir com a abertura dos gomos florais e a segunda com a época de floração.

Nutrientes secundários

Os macronutrientes secundários, Cálcio (Ca), Magnésio (Mg) e Enxofre (S) são necessários em menores quantidades e não com tanta regularidade. Os micronutrientes Boro (B), Cobre (Cu), Ferro (F) e Molibdénio (Mb) são usados em quantidades menores e normalmente só são incorporados quando aparece algum sintoma de deficiência. Também podem ser acrescentadas, se necessário, doses muito pequenas de ácido nítrico (HNO3) para fazer baixar o Ph. Análises foliares permitem dizer aos produtores que quantidades de minerais e nutrientes precisam de ser acrescentadas.

Rega

O mirtilo é sensível à falta de água ou ao seu excesso. Esta particularidade explica o desenvolvimento muito superficial do seu sistema radicular e as suas características morfológicas.
A título de exemplo, um período seco de 8 a 15 dias em plena fase de formação do fruto pode pôr em causa o rendimento da plantação.

Sistema

O sistema de rega gota a gota é o mais utilizado e também o mais económico, direcionando o abastecimento de água diretamente para as raízes. O arbusto mantém-se seco, o que é uma vantagem na altura da colheita e reduz os problemas de incidências de fungos em condições de humidade, nas quais eles têm mais probabilidade de crescer. Uma linha colocada de um dos lados das plantas é adequado para os três primeiros anos, mas à medida que as plantas crescem pode ser necessário acrescentar uma segunda linha. Esta segunda linha deve ser colocada no outro lado da planta para garantir que a água alcança uma maior área do sistema radicular. A fertirrega permite acrescentar nutrientes na água de rega.

Poda

A importância da poda não deve ser subestimada se se pretender manter rendimentos estáveis e um bom calibre dos mirtilos, ano após ano, durante os 25 ou 30 anos de vida da planta de mirtilo. Pode ser necessária uma poda leve quando as plantas são jovens, mas a intensidade da poda aumenta com a maturação da planta. A poda consiste na eliminação de ramos de modo a equilibrar a parte aérea da planta, com o desenvolvimento das raízes e a produção de frutos.

Mais ramos, menor qualidade da fruta

Uma grande quantidade de ramos resultará numa grande produção de frutos, mas com qualidade inferior. Assim, na poda devem-se eliminar os ramos baixos, mortos, doentes e partidos. Eliminar os ramos muito velhos, tendo como objetivo o aumento de luminosidade e de arejamento no interior da planta. A época da poda pode afetar a altura da floração na primavera seguinte. Nas áreas que estão sujeitas a ventos frios tardios de primavera, é por vezes necessário, encorajar uma floração mais tardia. Entre o segundo e quinto ano a preocupação deve continuar a ser a construção de arbustos saudáveis e não a produção de frutos, retirando os ramos baixos, doentes e partidos.

A partir do 6º ano, para além de continuar a remover os ramos mortos e doentes, deve-se cortar entre 1 a 4 dos ramos principais. O corte deve ser feito todos os anos removendo sempre os ramos mais velhos. Os ramos com mais de cinco anos são menos produtivos pelo que, a não remoção dos ramos mais velhos ou uma fertilização inadequada, poderá resultar num insuficiente número de lançamentos a surgir na base da planta.

Colheita

Tendo em conta as plantas, o escalonamento da maturação varia entre duas a cinco semanas. Quanto mais velha a plantação, mais produz e mais prolongado é o período de colheita. Em média, o mirtilo entra em produção comercial ao quarto ano depois da plantação. A produção e comercialização de mirtilo aumenta regularmente podendo atingir as 10 ton/ha ao sétimo/oitavo ano de cultura. Atingindo esta fase, a produção mantém-se estável desde que a cultura seja corretamente acompanhada e tratada. Geralmente, adota-se uma frequência de colheita diária. A colheita é manual e requer mão-de-obra significativa, em média 20 pessoas/ha no pico da produção.

Data da colheita

As datas de colheita variam segundo as plantas, a altitude e a região. Em Portugal, as colheitas decorrem entre meados de abril a inícios de setembro. Após a colheita deverá ser efetuada a seleção do fruto, eliminando-se os frutos de má qualidade, frutos pequenos, verdes, sujos, com podridões ou danificados.

colheita de mirtilo

Embalamento

O embalamento deve ser efetuado com aplicação das normas de higiene e segurança, de modo a garantir qualidade e sanidade do fruto. Pode ser efetuado diretamente no campo, durante a colheita, colocando o fruto para as cuvetes de comercialização. Ou, por outro lado, ser efetuada para tabuleiros ou baldes de plástico e posteriormente, na secção de embalamento faz-se a escolha do fruto e calibragem.

Armazenamento

Quando se fala em armazenagem dos frutos está implícita a sua conservação em locais de ambiente condicionado, com controlo de temperatura e humidade a níveis adequados, em câmaras frigoríficas. Depois da colheita, uma rápida diminuição da temperatura dos frutos é uma das medida mais importantes para prolongar a sua conservação. A diminuição rápida da temperatura após a colheita permite abrandar as alterações do fruto, nomeadamente ao nível da cor, textura e das qualidades organoléticas. A temperatura ideal de conservação é de 2 a 4ºC.

Produtividade

Cada planta demora cerca de 6-7 anos até atingir a sua produtividade máxima. Geralmente a partir do 7º ano, uma plantação de mirtilo bem gerida pode ter produtividades na ordem das 9 toneladas por hectare, sendo o mínimo aceitável metade deste valor.

Tais produtividades, e consequentemente potencial rentabilidade mirtilo, permitem que este pequeno fruto tem gerado interesse em vários empresários do setor, que procuram capitalizar os apoios disponíveis atualmente em vigor e também o melhor aproveitamento possível das suas terras.

Rentabilidade

O facto de ter uma produtividade que pode atingir as 9 toneladas por hectare em idade cruzeiro, torna a potencial rentabilidade e a produção e comercialização de mirtilo muito apelativa.

Se tivermos em conta que os preços de venda do produtor podem-se situar entre os 3€ e os 6€ por kilograma, o valor de venda da produção de um hectare poderá atingir valores de faturação de 50.000€, um valor muito mais alto do que os valores tipicamente conhecidos para culturas de frutos mais tradicionais como a maçã, pêra, ameixa, entre outros.

Custo mais significativo na produção de mirtilo

Porém, é necessário ter em conta o custo de mão de obra e a produtividade deste, comparativamente com os outros frutos mencionados acima. A produtividade dos colaboradores é um fator essencial, dado que um rácio de 2kg/hora ou 4kg/hora de um colaborador pode significar ter ou não ter rentabilidade.

Comercialização

Os mirtilos podem ser consumidos frescos ou transformados em compotas, gelados, licores e acompanhando pratos de carne especialmente caça ou em confeitaria. Quando comercializados em fresco, podem ser embalados em “cuvetes” ou caixas de 1,5kg ou 3 kg para granel.

Para uma comercialização séria e profissional, é necessário ter em conta a qualidade do fruto. O conteúdo de cada embalagem deve ser homogéneo e conter apenas frutos da mesma origem, plantas, qualidade e tamanho. Se estas diretrizes não forem seguidas, a qualidade e, em consequência, o preço poderá ser afetado pela negativa.

Para mais informações:

– Mirtilos, guia de boas práticas para produção, promoção e comercialização.

– Informação Técnica – Feira Nacional do Mirtilo

– A planta de mirtilo – Folhas de Divulgação Agro – INIAV

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